domingo, 15 de janeiro de 2012

Lá é demais silêncio,
os carros passam calados, as ruas
não têm pavor, não suam
a desesperança das lágrimas, aos quilômetros, sofridas.

Lá adormeceram os pássaros, não cantam mais a dor.
Os barulhos são só os sinos da Igreja
as nove, as doze, as dezesseis.
As folhas e as flores esqueceram o caminho do tombo.

Lá os rios não sabem do que correm,
os animais angustiam o tédio de abraçar
um novo sol a cada alvorecer; e ver o pasto ambundar.
Lá todos são um domingo,

vivem os seios vestidos e o sexo
é terno e manso, é demasiado céu e tão pouco lua:
não são os corpos regados do sereno dela
que fode comigo pensando no sol, Não!

Lá a saudade é só vagarosa e inerte memória;
e a tristeza rendida e posta esqueceu a felicidade;
Lá faleceu o samba, quebrou-se o tango: a poesia
é porcelana para arqueólogos; e é muda.

Por isso aqui fiquei: no teu suor, adormecido
na humanidade do teu corpo ofegante e cansado
ouvindo o ensurdecer do teu sangue a rasgar as veias
enquanto tu suspiras e reconta cada cicatriz, ó vida!



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